Press Review

Good old Sintra
Rita Jardim - Grande Reportagem - 12/1999

      "George Noel Gordon Byron... Não, desculpe, Sr. Byron, mas o seu nome não consta da lista de reservas", responde uma rapariga quase sumida por detrás da recepção, sem tirar os olhos do ecrã do computador que the espelha um brilho azul de insecto luminoso nos seus enormes óculos de armação dourada. "Se não se importa o nome é Lord Byron", responde-lhe um homem de casaca carcomida pelo tempo a pelas traças, dobrando-se numa elegante vénia sobre o cabo de prata da sua bengala de madeira. Já impaciente, mas transbordando de fleuma britânica. Lord Byron remata: "Peço-lhe que verifique mais uma vez". E soletra: "L-o-r-d B-y-r-o-n. Veja lá com atenção. Tem de constar da lista, pois fui eu mesmo que marquei uma mesa para duas pessoas aqui no restaurante do Lawrence's, aliás, a minha hospedaria preferida em Sintra. Pedi especificamente uma mesa à janela como é também do agrado do meu comensal, o José Maria. Provavelmente já ouviu falar dele, José Maria de Eça de Queiroz. Não? Really? Espere lá, não conhece o José Maria ou não encontra a reserva?" E acrescenta, entredentes: "Se quer que lhe diga prefiro a segunda hipótese." A menina da recepção volta a abanar a cabeça: "Conforme lhe disse, não há aqui nenhuma reserva, nem em nome de Lord Byron nem em nome de... Eça de Queiroz, foi o que disse?"

A funcionária prepara-se para conduzir Byron, mas o "grande vulto" conhece o local como a palma das suas mãos. "Oiça lá, como é que está a encantadora Jane, a Jane Lawrence?", pergunta-lhe Byron. "Jane? Acho que está a fazer confusão", afirma a recepcionista, saltitando alguns passos atrás, "mas se se estiver a referir ao proprietário deste hotel, ele chama-se Jan Willem Bos e é holandês." O poeta pára subitamente a meio da escada e, virando-se para trás, pergunta com indignação: "O quê, não me diga que correram com a Jane? Oh dear", suspira, encaminhando-se para a sua mesa favorita, "ao menos isso mantiveram."
 

"Bom isso da Jane eu não sei", afirma a recepcionista, preparando-se para debitar a mesma lengalenga pela centésima vez: "O Lawrence's é o mais antigo hotel do país a abriu em 1764, depois foi adquirido pelo Sr. Duran que então the chamou Hospedaria Inglesa. Mais tarde comprou-o o Sr. Gallway e, aliás, foi nessa altura que se fizeram aqui as primeiras queijadas. Depois passou para uma senhora checoslovaca, Maria Janavcova, com o nome de Estalagem dos Cavaleiros. E 235 anos depois veio a família holandesa Bos, que o abriu de novo com a designação de Lawrence's. A recuperação durou..." Byron já não está interessado na explicação e senta-se a uma mesa ao fundo da sala. Desdobra com a ponta dos dedos o delicado guardanapo de algodão que pousa sobre o colo e recebe a ementa das mãos do maître d'hotel. Olhando de soslaio sobre o seu monóculo rachado, Byron constata: "Estou a ver que o Faustino também já não trabalha aqui. Well, diga-me lá o que aconselha para hoje. Um creme de cogumelos com salva fresca para começar? Sim parece-me bem, seguido de uma tranche de dourada braseada sobre cogumelos laminados em creme de açafrão a estragão fresco, não está mal", concede ainda um pouco desconfiado. Terminada a refeição, regada não por um Colares - que já perdeu a qualidade que the valeu a fama - mas por um Aragonês, com a assinatura do enólogo João Portugal Ramos, Byron pode bem dizer que comeu como um "lorde". A sobremesa não poderia ser melhor: pudim de pão com gelado de baunilha.

Se não fosse a humidade a entrar pela janela da qual avista toda a Várzea de Sintra, Lord Byron poderia ficar ali para sempre, imobilizado em memórias a aventuras - as mais memoráveis contou-as na sua obra, Peregrinação de Childe Harold, onde relatou as suas impressões de viagem por Portugal, Espanha, Turquia e Grécia. Ao chegar a conta da igualmente memorável refeição, a educação britânica deste escritor só the permite murmurar um discreto "good Lord, estes preços já não são o que eram".

Mas um gentleman é um gentleman a ninguém dá pelo seu espanto. Aliás, parece que aqui ninguém dá por nada. Tirando a confusão das reservas - "e a propósito parece que o José Maria também se enganou" -, a verdade é que ninguém lhe chamou a atenção para o facto de trazer vestidas as calças do pijama do hospital psiquiátrico. E porque é que haviam de reparar? Ficam tão bem com a casaca. Aliás, quase tão bem como quando as combina com o seu bicórnio à Bonaparte ou a camisa encanudada à Camões.

Rita Jardim

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GR
       

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