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Press Review Good old Sintra |
"George Noel Gordon Byron...
Não, desculpe, Sr. Byron, mas o seu nome não consta da lista
de reservas", responde uma rapariga quase sumida por detrás
da recepção, sem tirar os olhos do ecrã do computador
que the espelha um brilho azul de insecto luminoso nos seus enormes óculos
de armação dourada. "Se não se importa o nome
é Lord Byron", responde-lhe um homem de casaca carcomida pelo
tempo a pelas traças, dobrando-se numa elegante vénia sobre
o cabo de prata da sua bengala de madeira. Já impaciente, mas transbordando
de fleuma britânica. Lord Byron remata: "Peço-lhe que
verifique mais uma vez". E soletra: "L-o-r-d B-y-r-o-n. Veja
lá com atenção. Tem de constar da lista, pois fui
eu mesmo que marquei uma mesa para duas pessoas aqui no restaurante do
Lawrence's, aliás, a minha hospedaria preferida em Sintra. Pedi
especificamente uma mesa à janela como é também do
agrado do meu comensal, o José Maria. Provavelmente já ouviu
falar dele, José Maria de Eça de Queiroz. Não? Really?
Espere lá, não conhece o José Maria ou não
encontra a reserva?" E acrescenta, entredentes: "Se quer que
lhe diga prefiro a segunda hipótese." A menina da recepção
volta a abanar a cabeça: "Conforme lhe disse, não há
aqui nenhuma reserva, nem em nome de Lord Byron nem em nome de... Eça
de Queiroz, foi o que disse?" A funcionária
prepara-se para conduzir Byron, mas o "grande vulto" conhece
o local como a palma das suas mãos. "Oiça lá,
como é que está a encantadora Jane, a Jane Lawrence?",
pergunta-lhe Byron. "Jane? Acho que está a fazer confusão",
afirma a recepcionista, saltitando alguns passos atrás, "mas
se se estiver a referir ao proprietário deste hotel, ele chama-se
Jan Willem Bos e é holandês." O poeta pára subitamente
a meio da escada e, virando-se para trás, pergunta com indignação:
"O quê, não me diga que correram com a Jane? Oh dear",
suspira, encaminhando-se para a sua mesa favorita, "ao menos isso
mantiveram." |
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"Bom isso da Jane eu não
sei", afirma a recepcionista, preparando-se para debitar a mesma
lengalenga pela centésima vez: "O Lawrence's é o mais
antigo hotel do país a abriu em 1764, depois foi adquirido pelo
Sr. Duran que então the chamou Hospedaria Inglesa. Mais tarde comprou-o
o Sr. Gallway e, aliás, foi nessa altura que se fizeram aqui as
primeiras queijadas. Depois passou para uma senhora checoslovaca, Maria
Janavcova, com o nome de Estalagem dos Cavaleiros. E 235 anos depois veio
a família holandesa Bos, que o abriu de novo com a designação
de Lawrence's. A recuperação durou..." Byron já
não está interessado na explicação e senta-se
a uma mesa ao fundo da sala. Desdobra com a ponta dos dedos o delicado
guardanapo de algodão que pousa sobre o colo e recebe a ementa
das mãos do maître d'hotel. Olhando de soslaio sobre o seu
monóculo rachado, Byron constata: "Estou a ver que o Faustino
também já não trabalha aqui. Well, diga-me lá
o que aconselha para hoje. Um creme de cogumelos com salva fresca para
começar? Sim parece-me bem, seguido de uma tranche de dourada braseada
sobre cogumelos laminados em creme de açafrão a estragão
fresco, não está mal", concede ainda um pouco desconfiado.
Terminada a refeição, regada não por um Colares -
que já perdeu a qualidade que the valeu a fama - mas por um Aragonês,
com a assinatura do enólogo João Portugal Ramos, Byron pode
bem dizer que comeu como um "lorde". A sobremesa não
poderia ser melhor: pudim de pão com gelado de baunilha. Se
não fosse a humidade a entrar pela janela da qual avista toda a
Várzea de Sintra, Lord Byron poderia ficar ali para sempre, imobilizado
em memórias a aventuras - as mais memoráveis contou-as na
sua obra, Peregrinação de Childe Harold, onde relatou as
suas impressões de viagem por Portugal, Espanha, Turquia e Grécia.
Ao chegar a conta da igualmente memorável refeição,
a educação britânica deste escritor só the
permite murmurar um discreto "good Lord, estes preços já
não são o que eram".Mas um gentleman é um gentleman a ninguém dá pelo seu espanto. Aliás, parece que aqui ninguém dá por nada. Tirando a confusão das reservas - "e a propósito parece que o José Maria também se enganou" -, a verdade é que ninguém lhe chamou a atenção para o facto de trazer vestidas as calças do pijama do hospital psiquiátrico. E porque é que haviam de reparar? Ficam tão bem com a casaca. Aliás, quase tão bem como quando as combina com o seu bicórnio à Bonaparte ou a camisa encanudada à Camões. Rita Jardim Esta secção é feita directamente pelos jornalistas ou colaboradores da revista, sem qualquer pretensão de crítica qualificada ou uniformidade de critérios. Só assumimos um compromisso: todas as despesas nos lugares sobre os quais escrevemos são pagas por nós. GR |
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