Press Review

A MESA E O SONHO
Revista - Casa Claúdia - 07/2002

      Foi ali que Lord Byron, o poeta a herói romântico, viu o Glorious Eden, num arrebatamento também sentido por Herculano, Camilo, Bulhão Pato, Ramalho Ortigão ou Eça de Queirós.

Estamos em Sintra, no Hotel Lawrence's. Em redor, o "variegado labirinto de montes a vales" que inflamou o romantismo de Byron, a que Eça descreveu corn a mesma paixão, através do olhar de uma personagem de Os Maias: " ... E de ali olhava a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo o declive da Serra como o musgo veste um muro." Quem visita o Lawrence's, o mais antigo hotel da Península lbérica a um dos primeiros da Europa, tem o privilégio de usufruir essa paisagem única, justamente considerada património da humanidade, e de partilhar sentimentos corn alguns dos maiores vultos da cultura dos séculos XIX a XX. Ninguém pode ficar indiferente perante tal beleza, nem esconder a emoção que ela provoca. E, nesse lugar mágico, ainda há oportunidade para usufruir outros prazeres, designadamente os da boa mesa, que é uma tradição do Lawrence's. Vem a propósito citar Júlio César Machado ("Machadinho", "Le Petit Machado", "Literato Janota" ou "Folhetimfex Maximus", como lhe chamou Ramalho), porventura o mais célebre folhetinista da Lisboa dos finais do século XIX, que confessava: "... Quando quero supor-me em Londres por alguns dias, vou simplesmente para o hotel Lawrence, em Sintra (...). Quando em qualquer terra houver seis hospedarias, a uma delas for inglesa, há-de ser esta onde mais se coma, onde se bebe melhor, onde haja um criado mais activo, a onde mais se conserva o respeito pelo comfortable!..."
 

O hotel já não tem a pronúncia escocesa da família Lawrence, há muito afastada. Depois de vicissitudes várias, acabou em ruínas a teria perecido ingloriamente se não se tivesse dado o caso do casal holandês Jan e Coreen Bos dele se enamorar. Fadado para o romance, o hotel recuperou a sua belíssima imagem de outros tempos, quando reabriu, em 1991. E o restaurante voltou a serum lugar prestigiado, quer pela localização, que é esplendorosa, quer pela cozinha, que é requintada. Pontificam, ali, dois jovens portugueses: os chefes Helder Damião (cozinha) e Paulo Martins (pastelaria).

Pratica-se uma cozinha de autor, moderna a criativa, embora inspirada na tradição portuguesa a preocupada com os seus produtos a os seus sabores mais genuínos. A ementa varia ac, ritmo das estações. Entre as sugestões de Verão, anotamos: Foie gras de ganso na grelha com pimenta verde a frutos tropicais, Paté de camarão a espargos verdes com manga, Lascas de bacalhau Lawrence's com broa a ervas aromáticas, Espeto de tamboril a camarão em pau de louro, Sela de javali em croute com pêra, Peitinho de frango grelhado, a Encontro do Mar a da Terra: tournedó de novilho com carabineiro da Tailândia a molho de rnorilles. Tudo delícias, como as que os chefes Helder a Paulo prepararam especialmente para a Casa Claudia.
       

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