Press Review

A velha Lawrence
Evasões - 04/2002

      Encontrámos o hotel mais antigo da Peninsula Ibérica. Está esconidido em Sintra, fez parte da vida de Eça de Queiroz, e chama-se Lawrence's Hotel.
0 nosso amigo Dâmaso andava com vontade de convencer Genoveva a passar uns dias em Sintra. Mas a coisa estava complicada, já que a vontade dela de deixar Lisboa era pouca. Apesar de a partida com Dâmaso lhe garantir a hipótese de "espremer-lhe os últimos sucos da generosidade", deixar a capital significava afastar-se de Vítor. "E uma pândega. O tempo está lindo.Vamos para minha casa, se quiseres. Senão, vamos para a Lawrence..." Tenta o homem convencê-la. E quando Genoveva - heroína queirosiana de "A Tragédia das Rua das Flores" -se decide a acompanhálo, Dâmaso acrescenta: "Vai-se para a Lawrence. Escrevo-lhe amanhâ. Prepara tudo à grande. (...) Está lindo em Sintra. É uma lua-de-mel. Hem, sua velhaca, sei ou não sei da coisa?" Havia de saber, o nosso Dâmaso. E, durante anos, passei a porta "da Lawrence" perdida dessa vontade de encarnar uma personagem de ficção que os lugares reais adoptados como cenário de romances lendários conseguem provocar. Neste caso, a porta do velho hotel abandonado - " a Lawrence" por se ter tornado famoso durante a direcção de Jane Lawrence, a própria "velha Lawrence de "Os Maias" mantinha-se intransponível. Qualquer assomo de loucura que nos levasse a procurar trepar muros, ou transpor janelas mal trancadas, seria isso mesmo, uma loucura. Já que, para lá do risco óbvio que uma entrada forçada em propriedade alheia acarreta, o pobre telhado ameaçava ruir a qualquer instante. Ficava pois por viver o cenário de encontros da "Tragédia da Rua das Flores" ou de "Os Maias" do nosso Eça.
      Ede um dia para o outro, eis que a curva da estrada para Colares se enchia de movimento, de pedreiros, carpinteiros, canalizadores, electricistas, homens do traço da engenharia a da arquitectura, de nariz no ar a mãos à obra. O velho hotel, nascido Lawrence's em 1764, transformado em Hospedaria Inglesa em 1850, vendido a aumentado em 1900 - chegando a funcionar aí uma pastelaria onde se fabricaram os primeiros pastéis de feijão - renomeado Estalagem dos Cavaleiros em 1935 e abandonado nos nossos anos sessenta, ia para obras. Talvez se pudesse finalmente espreitar os lugares da ficção e, mais tentador ainda, os quartos onde os criadores da ficção, tantos a tamanhos, a tinham imaginado.
Mas se obras são obras, obras em terra lusa ganham outras implicações. Só dez anos depois de começados os primeiros trabalhos é que o hotel reabriu. Cada quarto a lembrar cada personalidade que lhe foi dando vida ao longo dos séculos: Eça, Byron, Herculano, Camilo e, naturalmente, a inesquecível Jane Lawrence. Preparei-me pois para finalmente satisfazer a minha curiosidade. "Quer um chá?" Nem mais. Ou talvez só mais um mimo, que acabo por não pedir mas que chega com o chá, fatias de bolo-inglês, dourado, as frutas na justa proporção, e o empregado que parte do terraço sem se ouvir e me deixa entregue à pilha de livros recolhidos na biblioteca a ao pasmo do verdadeiro bosque que me ocupa o ângulo de visão sobre o vale que desce para a vila. Ninguém pode dizer que não, que não foi neste banco de pedra que Byron encontrou as palavras certas para começar "Childe Harold's Pilgrimage". Ou talvez tenha sido rum outro banco, no quarto onde a lareira embacia as dezenas de quadrados de vidro da profusão de vidraças. A ilustração que encontro a páginas tantas do volume copia na íntegra a vista que tenho do Castelo dos Mouros encarrapitado no alto da serra.
 

"Quando aqui entrámos com tudo ainda em ruínas, tivemos a certeza que era este o sítio que procurávamos", explicam-me os donos do Lawrence's do século XXI.
"Via-a bem, a mesa da Lawrence, com os seus candeeiros de azeite, as duas janelas para o terraçozinho", diz Eça, referindo-se a Vítor, que sonha com Genoveva.
Já não ha candeeiros de azeite a mesa do Lawrence. Mas há Lawrence. E há boa mesa no Lawrence, muito boa mesa. Pratos portugueses a revelar génio culinário de agora, muita imaginação a uma preocupação enorme com cada pormenor - garrafeira, pastelaria - que transforma uma refeição em arte. "Na realidade somos um restaurante com quartos", dissera-me o dono do velho hotel. Excelente definição. Duzentos a trinta a cinco anos depois de ter sido baptizado pela primeira vez, agradece-se a sorte de haver novamente o Lawrence em Sintra. E volta-se de certeza.
       

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