Press Review

O hotel mais antigo
Vista Alegre Revista - nº 18 - Abril 2001

 

Preferido por Lord Byron a por alguns dos mais célebres escritores portugueses do século XIX, o Hotel Lawrence's - o mais antigo da Península Ibérica - ressurge agora renovado. No restaurante deste nostálgico a romântico hotel, tão característico da vila de Sintra, a porcelana é Vista Alegre.

"(...) E por toda a parte o luminoso ar de Abril punha a doçura do seu veludo. Defronte ao hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges. - Tem o ar mais simpático - disse o maestro".

Os comentários são feitos durante uma das visitas de Carlos a Cruges a Sintra. Os dois personagens de "Os Maias", de Eça de Queirós, não resistiam, no final do século XIX aos bons ares da Serra de Sintra ou para ali corriam desesperados para encontrar as suas amadas a amantes. Em Sintra, entre os restaurantes a estalagens da sua predilecção estava o "hotel da Lawrence" - o Lawrence's, como costumavam referir-se - fundado em 1764 por Jane Lawrence, tratada com frequência como "a velha Lawrence", pelos amigos de Carlos Maia.

"- E onde estás tu, Alencar? - perguntou logo Carlos
- Pois onde queres to que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha Lawrence. Coitada! Está bem velha, mas para mim é sempre uma amigo, é quase uma irmã!..."

   

Um hotel no paraíso
O Hotel Lawrence's é o mais antigo da Península Ibérica e o segundo mais antigo do mundo. Ganhou especial fama quando Lord Byron aí se instalou no início do século XIX. O célebre escritor romântico esteve hospedado no Lawrence's em 1809 a foi aí que escreveu parte do livro "A peregrinação de Childe Harold", relato das suas experiências pelo continente europeu em que Sintra é descrita como um paraíso.

O ambiente de conforto familiar que já então caracterizava este hotel é descrito com algum pormenor em meados do século XIX por Lady Jackson, escritora inglesa de visita a Sintra, no livro "Formosa Lusitânia", traduzido e prefaciado por Camilo Castelo Branco.

"Penso eu que a mobília desta saleta desperta uma pallida reminiscencia da moda predominante em Portugal em passadas eras, a ainda hoje se encontram nas cazas antigas, onde mezas, cadeiras, armarios e tremós se cobrem de pannos escarlates ou damasco de qualquer côr. (...) Ora as mussellinas a fustões de Mrs. Lawrence eram alvos a limpos; e, havendo limpeza, seria de esperar que uma sincera enthusiasta do bucolismo se contentasse com isso, a d'isso mesmo prescindisse se o sea destino era viver entre as paisagens da pittoresca Cintra".

Neste livro a autora refere-se também a Mrs. Lawrence como uma "mulher já de annos adiantados" que já vivia em Portugal há algum tempo. Segundo Lady Jackson, "a velha senhora que ao princípio se mostrava áspera, suavisou-se prodigiosamente em palavras prazenteiras..."
   

Quartos com nomes
Para além de Jane Lawrence, o Hotel Lawrence's conheceu diversos donos. Em 1850 a casa foi vendida a outro inglês - Duran -, passando a chamar-se Hospedaria Inglesa. Em 1900 muda novamente de mãos e o seu proprietário Miguel Gallway aumenta o edifício para usar parte como pastelaria. Nas suas cozinhas fabricaram-se os primeiros pastéis de feijão.

Em 1935 Maria Janacova compra o edifício a denomina-o Estalagem dos Cavaleiros. Fechada nos anos 60, a casa é mais tarde comprada por Guedes Hare, que inicia algumas obras de remodelação. Finalmente, em 1989 o casal Coreen a Jan Willem Boos, de origem holandesa, adquire o prédio a lava a cabo a sua reconstrução, segundo um projecto do arquitecto Thiago Braddell. O hotel, reaberto em 1999, retoma o nome original a mantém a fachada e o `carácter', embora com algumas inovações que a evolução da tecnologia hoje permitem: ar condicionado, aquecimento, Internet, TV satélite e banheira de hidromassagem, entre outras. O que diriam os personagens de Eça de Queirós a estas novidades?

Em vez de terem números, muitos dos quartos e suites do novo Hotel Lawrence's evocam o nome de antigos a ilustres hóspedes como Eça de Queiroz, Lord Byron, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e William Beckford. Beckford esteve aí em finais do século XVIII a refere um almoço no Lawrence's no livro "Minuetes da Marquesa".

O restaurante onde teve lugar o almoço narrado por Beckford encontra-se hoje renovado. Amplo e luminoso graças a generosas janelas, o restaurante conta com uma decoração sóbria a alguns recantos discretos, entre os quais se encontra a "salinha das riscas", particularmente do agrado do actual Primeiro Ministro português. Neste restaurante bastante reconhecido na área a em que todas as refeições são especiais, dando-se preferência aos produtos frescos locais, são usados serviços Vista Alegre, feitos por encomenda e `personalizados' com o brasão do Hotel Lawrence's.
 

Lord Byron
Lord Byron é uma das personagens que mais se identificam com o Hotel Lawrence's, por aí ter ficado instalado uma temporada, quando esteve em Portugal. Juntamente com Keats a Shelley é um dos impulsionadores do Romantismo no século XIX.

George Noel Byron nasceu em Londres a foi levado pela mãe, Catherine Gordon para Aberdeen na Escócia. Ainda criança herdou o título a as propriedades do 5° Barão de Byron e fez mais tarde os seus estudos em Cambridge.

Foi membro do Parlamento inglês, onde teve uma passagem breve na `House of Lords'. De um efémero casamento tem lima filha, Augusta Ada, que deixa em Inglaterra quando inicia o seu périplo pela Suíça, Grécia, Turquia, Espanha e Portugal. Na Suíça terá outra filha, Alba Allegra.

Byron elogia Camões, que considerava um genuíno bardo no livro "Bardos Ingleses, Críticos Escoceses" , escrito em resposta aos comentários pouco amistosos da crítica em relação às suas obras.

A sua vida é digna de um típico herói romântico com todas as aventuras, conflitos interiores e paradoxos. A sua personalidade e modo de estar na vida influenciaram varias personalidades da Literatura, das Antes Plásticas e da Música, até aos dias de hoje. Morreu na Guerra de Independência da Grécia (contra a Turquia) aos 36 anos.
       

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