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Press Review Às portas do Paraíso |
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À semelhança
das majestosas chaminés do Paço Real e da silhueta altiva
do Palácio da Pena, o secular Lawrence's, morada efémera
de Byron, Beckford ou Eça de Queiroz, é um dos mais persistentes
ex-líbris de Sintra. [...] Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada a batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte a fresco da serra. E, a passo, o breque foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens a como o difuso a vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras a de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil a aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; a naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente. - A Lawrence onde é? Na serra? - perguntou ele, com a ideia repentina de ficar ali um mês naquele paraíso. [...] - in Os Maias, Eça de Queiroz Em
actividade desde 1764, o Lawrence's é o mais antigo hotel da Península
Ibérica e uma das mais antigas hospedarias da Europa. A escassa
distancia do centro da vila a da imponência da serra, colheu nome
dos proprietários originais, a família inglesa Lawrence
Oram, a manteve-se aberto ao público durante quase três séculos.
Dirigido, a partir de 1850, por Jane Lawrence Oram, personagem imortalizada
em Os Maias, viria porém a alcançar maior a mais justa nomeada
nos idos do século passado, mercê do requinte no trato a
do apuro na ambiência. Hospedou William Beckford, foi cenário
recorrente nas obras de Eça de Queiroz (ofereceu, por exemplo,
décor aos transportes incestuosos de Carlos da Maia a Maria
Eduarda), proporcionou pasto a abrigo a Eça, Ramalho Ortigão,
Oliveira Martins, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Bulhão
Pato a outras figuras gradas da literatura portuguesa. Segundo reza a
legenda, foi nos aposentos do Lawrence's que Lord Byron terá escrito,
no Verão de 1809, Childe Harold's Pilgrimage, a famosa elegia
ao Éden glorioso, divisa secular a coroa de glória desta
vila-património. |
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A
história centenária do pequeno-grande hotel da rua Consiglieri
Pedroso tem sido, porém, atribulada. Finda a gerência de
Jane Lawrence Oram, o hotel foi adquirido, em 1850, por Duran, cidadão
britânico, que o rebaptizou de Hospedaria Inglesa. Décadas
volvidas, nova transferência de propriedade. O comprador foi, dessa
feita, Miguel Gallway. Empreendedor, o novo proprietário decide
ampliar o edifício, cedendo uma parcela para a instalação
de uma pastelaria. Aí se fabricaram os primeiros pastéis
de feijão (1900) e, ao que consta, também as primeiras queijadas.Em 1949, o antigo Lawrence's foi tomado de trespasse pela checoslovaca Maria Janavcova. Recebeu então nova denominação, ressurgindo efemeramente como Estalagem dos Cavaleiros. Encerrado em 1961, conheceu o abandono durante três décadas. Sem telhado e de paredes esboroadas, esteve à beira da ruína, aparentemente condenado a um estertor inglório, Até
que, 235 anos depois da sua abertura, o velho Lawrence's voltou, enfim,
a renascer das cinzas, por iniciativa, agora, de um casal holandês.
Experimentados na hotelaria em Inglaterra, onde exerceram no conceituado
grupo Savoy, a apaixonados de há muito por Portugal, Willem a Coreen
Bos decidiram, seduzidos pela amenidade do clima, radicar-se em definitivo
entre nós, escolhendo abrir uma unidade hoteleira na região
de Sintra. A Várzea de Sintra foi, de início, a localização
escolhida. Alertados, porém, pelo arquitecto português com
quem haviam estabelecido contacto, Tiago Braddell, para a existência
em pleno núcleo histórico de Sintra dos vestígios
arruinados do velho Lawrence's, ensaiaram uma primeira visita. Acto contínuo,
deixaram-se conquistar, como recorda Willem Bos, pelo sortilégio
do edifício a pelo deslumbre da paisagem envolvente: "Não
queríamos um hotel convencional. Queríamos um hotel/casa,
de estilo diferente. Quando entrámos neste edifício, completamente
destruido, sentimos que era diferente de todos os outros. Soubemos depois
que era o mais antigo hotel de Portugal. Então, falámos,
pensámos, e. .. decidimos comprá-lo." |
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Uma reconstituição
fiel. Apostados
em converter num ilhéu de excelência, chancelado a cinco
estrelas, uma jóia intemporal da hotelaria portuguesa, não
hesitaram em consagrar toda uma década ao trabalho de restauro
a renovação. Sanadas vicissitudes várias, a reabertura,
há muito ansiada, teve, enfim, lugar em Maio de 1999.O projecto de recuperação do Lawrence's começou a esboçar-se em 1989. A aventura, marcada por atribulações várias, só conheceria desfecho dez anos volvidos e despendidos 400 mil contos repartidos em capitais próprios, subvenções do Fundo de Turismo e adiantamentos contraídos por empréstimo bancário. Desentendimentos com o empreiteiro inicialmente contratado e o alcance da intervenção, que obrigou à ampliação do edifício e a refazer na íntegra o miolo interno da construção, justificam a invulgar morosidade da empreitada. O projecto de recuperação, a cargo de Tiago Braddell, visou devolver à unidade centenária o esplendor, o conforto e o singular apelo retro dos seus tempos áureos. |
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Mantidas,
até por exigências decorrentes do estatuto conferido a Sintra
pela UNESCO, o de Vila/ Património da Humanidade, as paredes exteriores
a as volumetrias essenciais do edifício, o essencial da intervenção
centrou-se nos indispensáveis benefícios estruturais - aos
três pisos do edifício original foram acrescentados, sem
prejuízo da fachada, um piso superior a um piso inferior, que obrigou
à remoção de 800 camiões de pedra - e nos
arranjos interiores.Antes de iniciar as obras, foram esmiuçados ao pormenor, durante um ano, todos os registos documentais, referentes ao hotel, constantes dos arquivos da Câmara. Na reconstrução a posterior guarnição do edifício procurou-se respeitar o mais possível os materiais, a compartimentação, o mobiliário, os acabamentos do retiro original. As madeiras são omnipresentes. A tijoleira, dita de terceira classe, procura assemelhar-se ao revestimento-padrão da época. E até as toalhas e guardanapos foram executados segundo os modelos originais. Inicialmente supervisionada por Maria Aura Troçolo, responsável pela paleta de cores a pelas orientações gerais do projecto, a intervenção decorativa viria a ser, por indisponibilidade da decoradora, assumida por Coreen Bos. Coube-lhe a escolha dos materiais, têxteis a motivos e ainda a selecção de muitos dos acessórios, adquiridos em feiras de antiguidades, na Europa. |
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Suite Lord Byron. Nesta
segunda existência, o Lawrence's passou a dispor de 16 quartos,
dos quais cinco suítes, repartidos em 1.963 metros quadrados de
área total. Aliando ao rigor revivalista, patente nas bucólicas
soluções decorativas a nas múltiplas guarnições
de inspiração romântica, as benesses tecnológicas
mais recentes, todas as unidades dispõem de ar condicionado, conexäo
à Internet, pré-equipamento para conferência via satélite
e o mais avançado sistema de detecção de incêndios.
Na identificação dos quartos prescindiu-se dos números.
Agora, os aposentos foram apropriadamente baptizados a decorados em tributo
aos panoramas envolventes a aos seus hóspedes mais insignes, como,
por exemplo Lord Byron, William Beckford, Eça de Queiroz, Ramalho
Ortigão, Éden, Monte da Lua ou Bela Vista. Servido,
no mais, por áreas comuns generosas, o hotel reserva a hóspedes
e visitantes uma biblioteca, um bar, diversas salas de estar, uma sala
de reuniões, e, sobretudo, um cuidado espaço de restauração,
caprichosamente recortado na rocha da cave. Servido por terraço
a implantado em situação panorâmica, o restaurante
pode acolher cerca de 120 pessoas. Oferece uma cuidada selecção
da moderna gastronomia portuguesa e propõe, a hóspedes a
visitantes, uma nutrida carta com 150 vinhos de produção
nacional, criteriosamente orientada pelo Mâitre D' Francisco
Alves, escanção experiente que também tem a seu cargo
as duas adegas do hotel, uma de vinhos tintos a outra consagrada aos Vinhos
do Porto. A aposta na restauração é, aliás,
a pedra basilar do Lawrence's renovado. Tanto que o novo proprietário
prefere não se the referir como hotel. Para Willlem Bos, o novo
Lawrence's, jóia da oferta hoteleira sintrense, é, antes
de mais, "um restaurante com quartos". |
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